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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Apresentando: Rosana Paulino


Assentamento, Rosana Paulino.
 Imagem transferida sobre papel,
grafite e aquarela. 37,5 x 27,5 cm. 2012.
Foto daqui: www.rosanapaulino.com.br



























No último post comecei uma discussão sobre a necessidade de trazer mais diversidade para a arte. Nada mais justo do que começar a fazer a minha parte aqui! O blog tem a proposta de trazer também o trabalho de artistas que me inspiram, então começo hoje apresentando a arte de Rosana Paulino.
Conheci o seu trabalho pesquisando artistas que usam técnicas alternativas de fotografia. Ela sobrepõe técnicas diversas, como desenho, gravura, fotografia e bordado. Usa esses procedimentos para criar uma obra com conteúdo político, questionando a situação dos negros em nossa sociedade, e em especial da mulher negra; e levanta questões relacionadas a violência doméstica, que afeta principalmente (mas não apenas) as negras.
De produção contemporânea, ela se difere dos artistas negros do modernismo, que tinham como tema a religiosidade africana, o ambiente mais rural etc. Rosana Paulino é uma artista negra urbana, e aborda temas mais próximos a ela, com a vivência de alguém que cresceu em São Paulo.




















Série Bastidores, Rosana Paulino. Imagens transferidas sobre tecido,
bastidor e linha de costura. 
30cm diâmetro. 1997.
Fotos daqui: www.rosanapaulino.com.br/






























Ela começou os trabalhos artísticos através do desenho e da gravura, mas logo se sentiu limitada por esses meios. Decidiu então trabalhar também com a fotografia, para lidar com as questões relacionadas ao racismo. Arrisco dizer que por conta da impressão de verdade absoluta transmitida pela fotografia (mesmo que as pessoas saibam que essa "verdade" pode ser manipulada ao extremo!).
Na série Bastidores, artista transfere quimicamente imagens fotográficas, que no original eram fotografias 3x4 de mulheres negras, de sua família. Essas imagens foram manipuladas e bastante ampliadas (o trabalho final tem 30 cm de diâmetro), e depois transferidas para tecidos esticados em bastidores. As imagens ficam um pouco borradas, indefinidas. Como algo que está se apagando, ou como uma aparição, algo não dito, apenas sugerido. Posteriormente foram feitos bordados, criando costuras em seus olhos, bocas, gargantas. Cria assim a imagem de mulheres que não podem ver seu lugar no mundo, que não podem falar sobre o que acontece, que trazem um nó na garganta.
Os materiais aqui são domésticos, de uso quase exclusivo femininos, como os bastidores, a linha de costura. A artista traz esse confronto de ideias, para abordar a contradição da realidade de muitas mulheres, cujo ambiente doméstico é seguro, "bucólico", apenas na aparência. É uma obra chocante, necessária para trazer à tona um tema pesado como esse.

Parede da Memória (detalhe), Rosana Paulino.
Técnica mista sobre tecido. 8 x 8 x 3cm. 1994.
Foto daqui: istoe.com.br/445569_O+ACERVO+DIANTE+DO+ESPELHO


















Já a obra A Parede da Memória,  que está no acervo da Pinacoteca,  surgiu de objetos que fazem parte da história da própria artista. Quando criança, na sala de sua casa havia um patuá, um pequeno objeto de tecido costurado retangular, que ficava no alto, protegendo o ambiente. Em sua casa também havia uma caixa de fotografias que ela gostava muito de olhar. Era de certa forma a história de sua família. Rosana decide recriar o patuá com imagens desta caixa de fotografias. Escolheu 11 imagens e reproduziu em grande quantidade. Aparecem repetidas, algumas coloridas manualmente, outras em preto e branco. Formam assim um jogo que remete ao jogo da memória. Essa instalação chega a 1300 peças, criando uma multidão de negros que simplesmente não pode ser ignorada. São histórias que precisam ser contadas e rememoradas, combatendo o apagamento a que os negros estão submetidos na sociedade brasileira.
Parede da Memória.
foto daqui:
www.contemporaryand.com/magazines/the-art-of-the-black-atlantic-ii



















Para quem quer conhecer mais da visão da artista, vale a pena conferir  seu site oficial!


Atlântico Vermelho, Rosana Paulino.
Foto: Amanda Branco.















quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Por Uma Arte Mais Diversa

No último fim de semana tive o privilégio de participar de uma aula com a artista e pesquisadora Rosana Paulino, sobre gênero e etnia na produção visual contemporânea. Aula incrível, com muito conteúdo, e muitos artistas que eu não conhecia (muitos mesmo!) 
E essa aula me fez voltar a alguns questionamentos, sobre o que vemos no main stream dos circuitos comerciais de arte, nas exposições, nas universidades de arte, nos livros. No geral: artistas homens, brancos, da Europa e Estados Unidos. Já me disseram que o livro A História da Arte, de Gombrich, que é uma grande obra de referência no assunto, não mostra uma única artista mulher em suas 688 páginas. Antes do século 20 praticamente não há mulheres na história da arte, e também não há negros ou indígenas. Não que essas pessoas não estivessem produzindo arte, mas simplesmente não eram consideradas. E agora elas fazem sim parte da história da arte, mas certamente não na mesma proporção que os homens brancos.
Nicola alada, inspirado em Bacon. Nicola Constantino.
173x135 cm. Impressão a jato de tinta. 2010. 
Argentina
http://nicolacostantino.com.ar/
































Quando fiz a graduação em artes visuais, foram apenas dois semestres de história da arte do Brasil. E mais um de cultura popular, que também ajudou: foi quando eu comecei a me interessar por culturas indígenas.

É verdade que a graduação em Artes Visuais, com 4 anos de duração, é pouco tempo para se ver toda a "História da Arte". (O que na verdade é trabalho gigantesco!). Mas, pelo viés que costuma ter, poderia se chamar História da Arte da Europa, não é? 
Não costumamos ver arte de outros países, quase não conhecemos nada dos nossos vizinhos da América Latina, salvo um ou outro mais conhecido, como Frida Kahlo, Diego Rivera, Botero.
MULHERES TALLANES, Mayy Koffler. 2008 Brasil.
www.mayykoffler.com





















Para constar, agora no mestrado, o conteúdo é um pouco menos centralizado em Europa e Estados Unidos. O ponto alto para mim nessa questão, até o momento, foi quando a crítica de arte Mariza Bertoli foi convidada a dar uma palestra sobre arte da América Latina. Palestra que também foi maravilhosa, trazendo esse conteúdo tão necessário de artistas do Brasil e América Latina.

Mas, para além da América Latina, eu tinha curiosidade sobre a arte de outros cantos do mundo. E os artistas dos países da África, os da China, da Índia..? A arte japonesa? E a da Austrália? O livro Uma Nova História da Arte, de Julian Bell, traz uma visão um pouco mais ampla de Arte Mundial, ainda que com pouquíssimas artistas mulheres. Vale a pena dar uma olhada.
























Quando estava fazendo o TCC na graduação, estudei um pouco de cultura indígena. Desde então comecei a achar estranho como quase não temos informação, pouco ou nada estudamos de arte indígena na faculdade, e pouco conhecemos sobre essas culturas, que existem aqui mesmo no nosso país. Vemos um pouco em alguma aula de história, mas é geralmente uma visão parada no tempo, como se os indígenas de hoje vivessem da mesma forma que viviam na época da colonização do Brasil. Deixo aqui um link para vocês verem que esses povos estão produzindo vídeos. Sim, vídeos, pois estamos em 2017.
Mana Huni Kuin, 2012. 
MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin.
Brasil.
facebook.com/movimentosdosartistashunikuin/




























Quando reduzimos a história da arte à produção europeia ou estadunidense, produzida por homens brancos, estamos estreitando a nossa visão, pegando apenas uma pequena parcela dessa produção mundial de conhecimento. Estamos ignorando uma enorme riqueza cultural e artística, com singulares visões de mundo.
E pior, a mensagem que fica é que o que os povos não brancos e as mulheres tem a dizer não importa. Que as culturas diferentes da dominante são inferiores, e não acrescentam nada. É mais uma forma de perpetuar a dominação, a visão de superioridade do branco europeu, e de invisibilizar os conflitos.
"Se alimenta mi espiritu (My Soul is Nourished)" by Manuel Mendive, 2007. 
Acrílica sobre tela, 65 3/4 x 95 polegadas. Cuba.
Cortesia do Ramon and Nercys Cernuda Collection.
https://g.co/kgs/chwBK6





















E o que é que podemos fazer para mudar isso? Como podemos levar essa arte, esses artistas,  para as galerias, os museus, as universidades, para o conhecimento das pessoas? Acho que não há uma resposta óbvia. É preciso buscar essa mudança. Lutar para aos poucos ir mudando esse racismo e machismo estruturais. Promover mais cursos, exposições e pesquisas que abracem a diversidade. Divulgar o que já existe. E trazer o assunto para discussão!

Ainda Dá Tempo!

Exposição Diálogos Ausentes, com curadoria de Diane Lima e Rosana Paulino: trabalhos de artistas negros, com temas relacionados à cultura e o racismo.
Até 29 de janeiro. Itaú Cultural - Avenida Paulista 149 São Paulo [Estação Brigadeiro do metrô] fone 11 2168 1777
http://www.itaucultural.org.br/programe-se/agenda/evento/dialogos-ausentes-mostra/