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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Clichê Verre - primeiros experimentos


Precisei dar um tempo no blog, e agora estou de volta. Consegui resolver outras coisas como o tão esperado (por mim pelo menos!) site oficial. Se você ainda não viu, pára tudo e vai lá: 
Agora vou compartilhar os primeiros experimentos que realizei com clichê verre. O clichê verre é uma técnica híbrida que nasce do encontro da fotografia com a gravura. A matriz é feita com uma chapa de vidro (também pode ser de acrílico ou acetato), que será pintada com tinta preta. Posteriormente o desenho será gravado nela, riscando-se a tinta com uma ponta seca.

Eu achava que seria mais complicado, pois havia visto no livro Fotografia Pensante a recomendação de usar tintas de gravura. Mas recentemente a artista e gravurista Néia Martins (confira a beleza do trabalho dela aqui: https://www.instagram.com/neiavancatarina/) me deu a dica de que é possível fazer com nanquim, material que eu já tinha em casa, o que tornou o processo bem simples. 

Então esses foram os procedimentos: apliquei uma camada de nanquim em uma chapa de vidro. Primeiro tentei com nanquim escolar da marca Acrilex, e não deu funcionou muito bem. A cobertura ficou ruim e fiz uma segunda camada, que ficou ainda bem irregular, e algumas áreas simplesmente não secavam, a tinta não aderiu bem ao vidro. 

Então usei um nanquim profissional, da marca Talens. A chapa não parecia muito uniforme e eu tentei aplicar uma segunda camada, mas logo percebi que não ia dar certo pois estava estragando a camada de baixo. Então trabalhei com apenas uma camada mesmo.
Preparo da matriz para gravação.

Com o nanquim escolar: pouca aderência



































O plano era fazer um desenho com algum lápis que aparecesse sobre o fundo preto, e depois gravar usando uma ponta metálica. Eu não tenho a ponta seca específica para gravura em metal, então procurei alternativas. Usei um lápis sépia para desenhar e para minha surpresa, aplicando alguma pressão ele arranhou o naquim, produzindo incisões com traços grossos. Para detalhes finos usei uma ponta de compasso, que funcionou muito bem, produzindo um traço bem mais fluido que o lápis. 
Um detalhe importante: se você for trabalhar com chapa de vidro, eu recomendo espelhar o desenho antes de gravar. Assim, na hora de expor à luz o lado da gravação pode ficar para baixo, garantindo que esteja em contato com o papel. Se o lado da gravação ficar para cima, há o risco de perder nitidez devido à espessura do vidro. 

Gravando com um lápis!

Detalhe da chapa gravada































Com a chapa pronta, era hora de fazer os testes. Revelei usando cianótipo sobre papel e sobre tecido. Eu pensava que no tecido os detalhes mais finos poderiam se perder, mas curiosamente eles ficaram mais marcadas do que no papel, produzindo um desenho mais contratado. Porém os dois resultados ficaram satisfatórios. Considerando que eu já tinha os químicos de cianótipo, o processo se mostrou uma gravura a um custo bem baixo, além de ser  muito fácil reutilizar as chapas: basta lavar com água (portanto, se não quiser estragar a matriz gravada, não deixe molhar!). A técnica pareceu bem promissora, e já vejo possibilidades de unir os desenhos em vidro com negativos fotográficos ou fotogramas! Mais possibilidades criativas surgindo!
Revelação em cianótipo sobre papel
Revelação em cianótipo sobre algodão




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Nudez na Arte e Nudes Pré-Históricos

Detalhe do teto da Capela Sistina - Estado do Vaticano, 1508-1512.
Afresco de Michelangelo. Imagem daqui:
https://www.thevintagenews.com/2016/06/08/44775-2/





















Semana passada recebi a notícia do Projeto de Lei 8740/17 em tramitação que visa criminalizar a representação de órgãos genitais em obras de arte. Isso é no mínimo estranho considerando séculos de história da arte, em que pinturas de nus aparecem até mesmo no interior de igrejas. Faz sentido criminalizar o acervo de diversos museus?? A justificativa para esse projeto de lei foram as polêmicas ocorridas em 2017, envolvendo a exposição “Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, realizada no Centro Cultural Santander, em Porto Alegre (RS); e a performance “La Bête”, de Wagner Schwartz, realizada no MAM. Houve diversas críticas ao fato da exposição Queermuseu ter sido visitada por escolas, e pelo fato de uma criança ter interagindo com o artista nu na performance “La Bête”, tocando o seu pé e a sua mão, o que levou a acusações de pedofilia.

A questão da nudez na arte e a erotização de crianças tem milhares de tons entre o preto e o branco... tantas variáveis! Eu absolutamente não defendo a erotização infantil.
Para começar, nem toda obra de arte precisa ser feita para crianças. A arte pode tratar de temas mais pesados, como guerra e violência, e se isso for inapropriado para crianças, não significa que o assunto não deva ser abordado. É o caso de se adotar um aviso com indicação de faixa etária na entrada da exposição, por exemplo. E então, sabendo do conteúdo, os pais ou responsáveis podem decidir se levam a criança a essa exposição.

Também é importante ressaltar que abordar temas pesados não significa fazer apologia. O tema pode ser criticado também. Mas proibir um assunto é uma forma de ignorar o problema, e evitar que seja feito algo a respeito. Não ajuda.

Mas a minha principal motivação nesse tema é: a nudez não é apenas sobre sexo e erotização (e também vale dizer, uma imagem pode ser altamente erotizada mesmo sem apresentar nudez). A nudez tem muitos contextos. Na História da Arte, aquela oficial dos livros de história, vemos nus desde a Antiguidade Clássica, passando pelo Renascimento, incluindo pinturas de homens e mulheres nus, e anjinhos com aspecto de crianças... E prossegue, em pinturas do Realismo, em fotografias, na Arte Moderna... e na Arte Contemporânea também não é diferente.

Pensando nisso, decidi fazer uma série de posts com o tema nudez na Arte, mostrando diferentes contextos culturais e possivelmente diferentes aspirações para essas representações. "Arte" aqui aparece no sentido mais amplo, incluindo produções imagéticas ou plásticas de outros períodos e povos que não necessariamente consideravam o que produzem como "arte", mas que hoje entendemos como uma produção cultural, como é caso das pinturas rupestres. Neste primeiro post apresentarei brevemente algumas representações pré-históricas.


Nudes Pré-Históricos 

A imagem da nudez é possivelmente tão antiga quanto a própria representação da figura humana. Uma das primeiras representações humanas que se tem notícia é a Vênus de Hohle Fels ou Vênus Impudica, encontrada na Alemanha, e que data de pelo menos 35 mil anos atrás. A estatueta tem 6 x 3,5 cm e apresenta os caracteres sexuais enfatizados: seios, nadegas e genitália destacados. No lugar da cabeça há apenas uma espécie de gancho, sugerindo que a peça seria usada como pingente. Especula-se que a estatueta esteja associada à busca por fertilidade, o que para povos do Paleolítico Superior seria uma questão crucial relacionada à sobrevivência do grupo.
Vênus de Hohle Fehls. Imagem daqui: 
https://www.thevintagenews.com/2016/06/08/44775-2/




















Um pouco mais conhecida que a Vênus de Hohle Fels é a Vênus de Willendorf, encontrada na Áustria, e que data de 22.000 a 24.000 anos atrás. Representa uma mulher com o ventre grande e redondo, e seios enormes. Esta imagem também parece celebrar a fertilidade, representando uma mulher grávida ou gorda. As Vênus são estatuetas bastante estilizadas, priorizando o que, no contexto em que foram feitas, era o mais importante.
Vênus de Willendorf. Imagem daqui: 
http://www.kenneymencher.com/2016/09/
why-is-venus-of-willendorfso-important.html






















Um pouco mais recentes, as pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara -PI datam entre 12.000 e 6.000 anos atrás. Esses homens pintados também são bastante estilizados, e aparecem com o pênis erguido. Infelizmente, não encontrei estudos sobre o motivo de aparecem assim. Quando se trata de pré-história, os significado e motivações das representações é em geral especulativo, baseado nos indícios que são encontrados. Aqui no mínimo temos a informação de que se trata da representação do sexo masculino.
Pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara
Imagem daqui: http://atlantablackstar.com/2014/07/31/5-pieces-
of-evidence-that-show-black-people-were-the-first-in-the-americas/3/



















 
Pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara
imagem daqui: https://www.viajenaviagem.com/2013/10
/vnvbrasil-serra-da-capivara-senta-que-la-vem-pre-historia/

















Para saber mais sobre essas obras pré-históricas, confira: 

https://vimeo.com/64601937
https://youtu.be/Y8noVoCsYGs
http://www.nytimes.com/2009/05/14/science/14venus.html
http://oridesmjr.blogspot.com.br/2013/09/arte-rupestre-do-brasil-tradicao.html

sexta-feira, 17 de março de 2017

A Goma Bicromatada

A Praia. Amanda Branco, 2012. Goma bicromatada sobre papel.

























Hoje retomo o tema da fotografia artesanal, trazendo uma técnica que uso bastante: a goma bicromatada, ou goma arábica. Esta prática é feita com uma emulsão fotossensível de goma arábica e dicromato de potássio. A mistura é praticamente incolor, e por isso adicionamos um pigmento - geralmente aquarela- a essa emulsão, gerando imagens monocromáticas ou policromáticas
O processo é semelhante a outras técnicas artesanais de fotografia: aplica-se a emulsão no suporte, que depois é seco e, em contato com um negativo, é exposto à luz. Apenas as partes da emulsão que receberam luz endurecem. A revelação então é feita em água, dissolvendo as partes que não receberam luz, e tornando a imagem visível.
Você pode encontrar o passo a passo no livro Fotografia Pensante, de Luiz Monforte, que eu já citei em posts anteriores, e no blog Alternativa Fotográfica.
Apesar dessas semelhanças, a goma tem o diferencial de ser especialmente passível de intervenções, possibilitando maior presença da subjetividade do artista. As manipulações diretas na imagem, juntamente com o trabalho em camadas de cor, aproxima a técnica da pintura e da gravura.
O tempo da revelação varia de acordo com o papel utilizado, com a concentração da emulsão, e também com o resultado que se deseja obter. Durante o processo da revelação, podemos usar uma esponja para limpar as áreas que desejamos deixar mais claras.
Se a proposta é uma fotografia com mais de uma cor, é preciso realizar uma nova sensibilização do papel, e depois uma nova revelação. Em uma imagem em três cores, cada cor é feita com um negativo diferente, e um novo processo de revelação. Vale lembrar que o papel precisa ser resistente para aguentar esses sucessivos banhos. Para obter uma imagem nítida, as impressões devem sair todas na mesma posição, sendo necessário fazer um registro -porém  ignorar o registro também é uma opção, caso se queira uma imagem não "encaixada".


Os três negativos usados para criar esta imagem.


Variações da série A Praia, feitas com os mesmos negativos. 
A da direita em goma bicromatada e as outras duas em
cianótipo e goma bicromatada.

















Minhas primeiras experiências com a goma. 
Bastante trabalho até conseguir uma boa revelação...











A goma é uma técnica bem difícil de fazer quando se está começando. Eu joguei muito papel fora até conseguir um resultado decente. A emulsão é espessa, o que dificulta uma aplicação razoavelmente uniforme no papel. Também a quantidade de pigmento precisa ser bem calculada, ou a imagem pode ficar muito lavada ou muito carregada, perdendo definição. Normalmente a fotografia em goma tende a ser menos definida, e por isso muitas vezes eu faço em conjunto com o cianótipo. É uma forma de conseguir trazer mais detalhe para a imagem final, já que o cianótipo costuma gerar imagens mais nítidas.
Animus. Amanda Branco, 2012. 
Goma bicromatada e cianótipo sobre papel.







Serpente. Amanda Branco, 2014. Goma bicromatada sobre papel.
















Animus. Amanda Branco, 2013. Goma bicromatada sobre papel.




















































Com todas essas variáveis, é impossível fazer duas cópias iguais de fotografia em goma bicromatada a partir do mesmo negativo. Quando comecei, eu fazia numerações nas impressões, seguindo a clássica definição para gravura em que além da assinatura o artista deve marcar o número total da tiragem e o número de série da gravura (convencionada no III Congresso das Artes em Viena, 1960). Depois cheguei à conclusão de que isso não faz sentido quando estamos trabalhando com fotografia artesanal. Cada uma das impressões é única; e eu não pretendo fazer delas uma cópia. Prefiro então marcar em todas a notação P.U. (prova única).

Serpente em Madeira. Amanda Branco, 2015. 
Goma bicromatada sobre madeira.


























Acredito que essa é a minha técnica favorita por que eu posso exibir virtuosismo em uma técnica difícil permite que eu faça um trabalho de cor, e por ser tão aberta a intervenções; e até a diferentes suportes. Já consegui fazer algumas revelações em E.V.A. e também em madeira, que é o suporte escolhido para a minha pesquisa do mestrado. Vejo muito potencial plástico na goma bicromatada, e por isso estou me aprofundando nesse processo.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Apresentando: MAHKU

Imagem daqui:
m.facebook.com/movimentosdosartistashunikuin/


























Algum tempo atrás eu tinha a ideia de que os povos indígenas não criam arte da mesma forma que nós entendemos, em uma sociedade urbana. Sabia que eles tem uma produção estética, que pode ser maravilhosa, mas acreditava que seria algo muito inserido no dia a dia, como um objeto de uso cotidiano, ou de uso ritual; e não como um objeto cuja principal finalidade é a apreciação estética.
Mas os povos indígenas são muitos! Existem muitos povos que não conheço, ou sobre quem não tenho informações atuais. (Minha principal referência era o livro Grafismo Indígena, de Lux Vidal -organizadora, publicado em 1992. É um ótimo livro, mas pode estar desatualizado: já tem 25 anos!)
Então, para mostrar que essa idéia estava equivocada, hoje quero falar um pouco sobre o MAHKU - Movimento dos Artistas Huni Kuin, citados no post Por Uma Arte Mais Diversa. Os Huni Kuin são um povo indígena localizados na fronteira do Acre com o Peru. O movimento começou com Ibã Huni Kuin, que foi para a cidade cursar o magistério e, ao concluir o curso, recebeu de seus professores a missão de escrever os conhecimentos de seu povo. Ele foi buscar informações de seu pai, e das pessoas mais velhas. Começou então a registrar na língua escrita o que antes era conhecimento oral. Estava assim resgatando elementos da sua cultura que estavam se perdendo: os cantos de ayahuaska, que escreveu na língua Huni Kuin; os mitos, e a própria língua Huni Kuin. Os jovens estavam se afastando desse conhecimento, e ele foi resgatar saberes ancestrais do seu povo. É um trabalho de inestimável valor, para os Huni Kuin e para a humanidade!
Esse resgate dos cantos virou um livro, Espírito da Floresta, além de material didático e também CD.
Depois, juntamente com seus alunos, Ibã começou a traduzir para o desenho os cantos do Espírito da Floresta. Seu objetivo é transmitir esse conhecimento tanto para suas crianças quanto para os povos não indígenas.
Imagem daqui: http://nixi-pae1.blogspot.com.br 





































Em 2011, com uma pequena ajuda da lei de incentivo à cultura começou a promover encontros com os artistas indígenas da aldeia Mae Bena no alto rio Tarauacá. Produziram um pequeno filme, e posteriormente apresentaram seu trabalho em uma exposição em Rio Branco, juntamente com apresentação musical. Agora o grupo segue com a missão de continuar resgatando e promovendo esses conhecimentos através da arte, em um trabalho contínuo.
Imagem daqui:
m.facebook.com/movimentosdosartistashunikuin/


























Observando esses desenhos, percebo uma grande diferença da produção visual indígena que pesquisei na época da faculdade. Vale lembrar que eram outras outras etnias, mas o que eu via era que quase não se fazia figuração; eram na sua maioria grafismos com alto grau de abstração.
Perguntei sobre isso ao grupo, na página deles no Facebook, e o Amilton me relatou que desde o século XIX eles começaram a ter contato com o branco, e assim tiveram acesso a materiais como papel e lápis, e desde a década de 70 começou um movimento de escolarização pelo Estado. Então desde aquela época eles começaram a fazer o uso das imagens desenhadas, chamadas dami. "Com o MAHKU é a primeira vez que se tem notícia de um movimento na direção de tratar temas tradicionais usando a linguagem do desenho e da pintura e de fazer disso uma expressão artística com uma cara huni kuin, com uma proposta de arte huni kuin que articula o tradicional com o contemporâneo; se o MAHKU não inventa os desenhos dami, ele se apropria deles e faz um uso cultural e artístico inédito" (trecho do relato do Amilton, que eu não poderia explicar melhor!)
Se antes havia a pintura de grafismos na pele, agora também fazem pintura na tela e na parede, misturando os dami e grafismos. Ainda não vi ao vivo essas pinturas na parede. Pelas fotos, parecem impressionantes, algo que envolve o espectador, e o transporta para um outro lugar, repleto de seres da natureza e grafismos hipnóticos.
imagem daqui: 
m.facebook.com/movimentosdosartistashunikuin/


























imagem daqui: 
m.facebook.com/movimentosdosartistashunikuin/


























Em diversos desenhos a representação do mundo é fluida, flutuante, psicodélica. Acredito que em parte pela influência do ayahuasca, bebida hipnótica usada por eles. Mas também demonstra uma visão diferente de mundo, em que a representação do espaço segue regras próprias.
Para conhecer mais, confira o blog Espírito da Floresta, em que eles publicam os próprios trabalhos, e a sua página no Facebook
Também podemos ver alguns desenhos deles na exposição Avenida Paulista, no Masp, que vai até 28/5. Os desenhos que integram a exposição foram criados a partir das primeiras impressões que os artistas do movimento tiveram da cidade de São Paulo, em sua visita em 2016. É um olhar “estrangeiro” sobre a cidade, mostrando uma Avenida Paulista habitada por carros e prédios. É uma boa oportunidade para ver uma amostra do trabalho deles, mas ainda quero conhecer mais!
Dami. (Avenida Paulista). Ibã Huni Kuin e Mana Huni Kuin. 
Acrílica sobre tela, 2017.




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sobre a importância de ler imagens

O post de hoje é diferente. Saio um pouco do campo específico da Arte para falar sobre imagens de uma forma mais geral, sobre a linguagem visual. O tema é bem extenso, e este post é apenas uma introdução.
Vivemos mais do que nunca rodeados por imagens. Tiramos selfies, vemos fotografias nas redes sociais, no noticiário, na publicidade. Essas imagens sempre trazem consigo mensagens, que podem ser mais ou menos objetivas. Mesmo sem percebermos, essas mensagens chegam até nós. E é importante prestar atenção na mensagem contida nas imagens, para poder fazer uma leitura crítica delas, e até para filtrar um pouco esse contingente de informação que chega até nós diariamente. 
As imagens são algo muito poderoso. Elas contam histórias, e ouvir histórias é uma necessidade do ser humano; a tradição é feita com histórias. Elas criam significado e nos ajudam a entender o mundo em que vivemos, e as situações que nós vivemos. 


Pintura rupestre do Parque Nacional da 
Serra da Capivara. 
Foto do site www.suapesquisa.com
Na pré história, a relação do homem com as imagens, até onde sabemos, era a da magia. É a hipótese mais provável. As pinturas pré-históricas tinham uma função prática, para concretizar ações, como a caça, a proteção contra maus espíritos, entre outras coisas. 
E ainda hoje existe um resquício dessa função mágica da imagem em nossa mente. Na faculdade de Artes, eu li aquela bíblia chamada A História da Arte, de Gombrich. No primeiro capítulo aparece um exemplo ótimo para mostrar como a nossa relação com as imagens não é assim tão racional como supomos: imagine pegar o jornal de hoje (de papel ainda, que o livro é de 1950) e recortar o retrato do seu "campeão favorito" (também pode ser a fotografia de uma pessoa querida). Você sentiria prazer em furar os olhos dessa imagem com uma agulha? A sensação seria exatamente igual se você fizesse furos em outra parte do jornal? Pois é, a gente sabe que nada vai acontecer com a pessoa retratada, mas não deixa de ser desconfortável.
Então é preciso pensar no que as imagens que chegam até nós estão transmitindo. Sabemos que a publicidade, por exemplo, vende muito mais do que produtos; vende ideias, estilo de vida. Uma fotografia, apesar de parecer uma representação fiel da realidade, não é uma imagem neutra, isenta de interpretação. 
A pose do retratado pode trazer diferentes interpretações; assim como o ângulo de visão. Quando a fotografia é tirada de um ponto um pouco acima da pessoa retratada, essa sutileza faz com que estejamos acima dela quando vemos o retrato. Como resultado, a pessoa pode parecer menor, inferior, em uma posição a ser julgada. Da mesma forma, se o retratado é visto um pouco acima de nós, pode passar a ideia de poder, de grandeza. Isso aparece bastante no cinema e nas histórias em quadrinhos.


Cena do filme O Poderoso Chefão. A câmera baixa enfatiza a posição
de poder 
do persnonagem.

Página da HQ Sin City, de Frank Miller. À esquerda, câmera alta, mostrando 
vulnerabilidade. À direita, câmera baixa, evidenciando o poder. Este também
é o ângulo que as personagens estão se vendo, o que faz o expectador
ter a visão do possível opressor e do oprimido, sucessivamente.
























Quando o corpo de uma mulher aparece recortado, em close, e tudo o que importa são suas formas e seu apelo, está retratado como um produto (e essa é só uma das formas em que a mulher aparece como produto). E se aparece assim tantas e tantas vezes, fica a sensação de que isso é normal. Se, ao contrário, a mulher for retratada como sujeito, será valorizado o que ela pensa, o que sente, a que aspira. Essa é a diferença fundamental.
Peça publicitária da Skol. A marca já em histórico de publicidade que 
objetifica as mulheres.




















Publicidade do perfume Paco Rabanne. Imagem do homem em 
uma posição de poder (mas também com tendencia a 
objetificação...)



























Vale lembrar que na publicidade a representação do homem também tende a ser estereotipada, como o provedor, dominador ou agressivo. Mas felizmente aos poucos têm surgido empresas buscando fazer diferente.
Esses são apenas alguns exemplos de tipos de representação que são comuns atualmente. Muitos outros aspectos podem ser analisados, como o que as pessoas estão fazendo, qual a sua função, a sua posição... Observe as capas de revistas, as imagens dos jornais, da publicidade, dos filmes e seriados. O que elas dizem para você? Com isso os meios de comunicação estão sendo éticos? Estão buscando mudanças ou reforçando estereótipos nocivos?
Em artes as mensagens tendem a ser menos objetivas. É característica da arte ser mais aberta a interpretações, com possibilidades de significados diversos. Ainda assim, as mensagens estão presentes, podendo ou não alcançar o espectador. Como artista, eu me preocupo com as mensagens que estou transmitindo. Por isso existem conteúdos específicos que coloco nas obras que produzo. Questões como a introspecção, o encontro consigo mesmo, a harmonia com o ambiente, tem aparecido em meu trabalho. 
Serpente III, Amanda Branco. Van Dyck sobre algodão. O corpo aqui não é 
objeto, mas parte do sujeito, e meio de auto expressão.





















Para complementar essa reflexão, eu gostaria de recomendar: 
Este trecho do filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho. É um video curto e fácil de entender. Aqui, o escritor José Saramago e o cineasta Wim Wenders dão depoimento sobre a importância das imagens. 
-Para quem quiser se aprofundar no assunto, o livro Modos de Ver, de John Berger. O livro mostra a influência da tradição da pintura nas imagens da publicidade; e como os valores  reaparecem contemporaneamente.