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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Serpente

Hoje gostaria de voltar ao início, e falar sobre a primeira série fotográfica que realizei com processos artesanais, a Serpente. Esse trabalho começou em 2008, com uma pesquisa que eu estava fazendo na faculdade sobre culturas indígenas, e em especial a pintura corporal. Quis fazer uma releitura dessas pinturas no meu próprio corpo, registrando em fotografia. Mas logo percebi que, nesse trabalho, a fotografia não era apenas um registro, mas a própria obra. Por sugestão do professor que estava orientando o projeto, Agnus Valente, comecei a revelar as imagens com a técnica Van Dyck Brown, que eu já mostrei nesse post. Nesse momento não tive resultados satisfatórios, foi só o primeiro contato.

Eu queria representar nas imagens uma espécie de ritual solitário, algo que se aproximasse de uma sessão de yoga, um momento de se conectar consigo mesmo. A propósito, yoga
em sânscrito significa justamente união, reunir. Então, eu fui criando uma mistura que eu nem imaginava, unindo pintura corporal com yoga, e depois a fotografia artesanal. Mal sabia eu que continuaria pesquisando esse processo por quase 10 anos, até o momento!

No ano seguinte (2009), para o Trabalho de Conclusão de Curso, decidir refazer esse trabalho, aprofundando a pesquisa. Pesquisei sobre as pinturas corporais indígenas, sobre o desenho utilizado, que é conhecido por nós como "grega", e sobre o simbolismo da serpente. Percebi que a pintura corporal se relaciona com o símbolo da serpente, apontando para uma transformação, visto que as serpentes mudam de pele. Em outro post vou aprofundar essa relação, e também vou escrever sobre o processo de pintura corporal.

Dessa vez realizamos a pintura no corpo todo. Digo realizamos por que o artista Aldrin Booz já estava me auxiliando nesse processo, ajudando a fazer a pintura, a definir a organização do desenho no espaço, e a captar imagens, since 2008 (Gratidão pela parceria!). 

A parte final dessa obra foi realizar a revelação das fotografias em Van Dyck Brown, dessa vez com algodão cru como suporte. Aliás, foi nesse momento que eu aprendi a revelar usando esta técnica. Hoje é engraçado lembrar o quanto me atrapalhei nessa época, mas foi parte do aprendizado.

Serpente I, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.





















Serpente II, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.






















Até então eu não tinha entendido que é possível trabalhar em um ambiente apenas sombreado; não é necessário usar apenas a luzinha vermelha de laboratório fotográfico. Fiz a aplicação da emulsão no tecido em casa mesmo. Eu havia encapado a lâmpada com camadas de celofane vermelho na tentativa de simular a luz vermelha. Com a luz muito baixa, não enxergava bem o que estava fazendo, e deixei  a emulsão respingar bastante nas margens das fotografias - o que foi um acidente, mas eu gostei e incorporei o resultado. Assim foram as primeiras lições do processo rs

Eu queria fazer muitas imagens ao mesmo tempo, o que hoje eu acho inviável. E não gostava de perder tempo fazendo a tira de teste (teste feito para calcular o tempo ideal de exposição à luz), e por isso acabava deixando muitas imagens superexpostas ou subexpostas. É sério, se você quiser fazer fotografia artesanal, faça o teste, para evitar desperdiçar tempo e material. Algumas das imagens eu revelei usando a luz do sol, e nesse caso é mais difícil precisar o tempo de exposição à luz, pois a intensidade varia durante o dia. Dessa forma o controle sobre o processo é menor.

Serpente III, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.


Serpente VI, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.

Também apareceram algumas manchas, talvez porque o suporte ainda estivesse um pouco úmido quando foi exposto à luz. O Van Dyck Brown pode ser bem temperamental, principalmente quando a pessoa não tem experiência, e acaba sendo desatenta...

Serpente IV, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

Serpente V, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

Serpente VIII, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

























































Serpente VII, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.



























Mas, mesmo com esses "contratempos", esta foi a primeira série que revelei e tive bons resultados. E principalmente, Serpente abriu esse caminho para minha produção, me deu uma mostra do potencial da fotografia artesanal, e trouxe essa vontade de conhecer, de pesquisar e criar mais.

Serpente IX, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.

























sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Van Dyck Brown

imagens da série Serpente. Van Dyck Brown sobre papel, 2010.

















De volta aos processos, hoje vou apresentar a técnica de fotografia que foi a primeira que experimentei, lá na graduação, em 2008. É o Van Dyck Brown, ou Marrom Van Dyck.
Remonta ao fim do século XIX, e seu nome vem da tonalidade das fotografias,  muito parecida com o marrom usado pelo pintor flamengo Van Dyck (1599-1641), como você pode ver na selfie abaixo. 
Self Portrait, Anthony van Dyck.
imagem do site https://commons.m.wikimedia.org


























Experimento em fotograma, Amanda Branco. 2014. 
Van Dyck Brown sobre tecido



















Por causa dessa tonalidade, o processo produz imagens particularmente bonitas.
Foi com esta técnica que realizei as imagens da série Serpente, que foi o meu Trabalho de Conclusão de Curso na graduação.
Serpente V, Amanda Branco. 2009. 
Van Dyck Brown sobre tecido.


























O processo que segui foi o indicado no livro Fotografia Pensante, de Luiz Monforte. É uma versão simplificada do processo original, que você pode conferir aqui. É parecido com o que expliquei nesse post: a solução fotossensível é à base de nitrato de prata, e é aplicada no papel com um pincel. Depois o papel é seco e exposto à luz, e então passa por um banho revelador, um banho fixador, e por fim uma lavagem com água. 
A propósito, não confunda com as fotografias em sépia, comuns no começo do século XX. A sépia é um tipo de viragem feita na fotografia pb já revelada, e não um processo de revelação da imagem.
A série Serpente, ilustrada aqui, é bastante significativa para a minha produção. Em breve escrevo mais sobre ela.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sobre a importância de ler imagens

O post de hoje é diferente. Saio um pouco do campo específico da Arte para falar sobre imagens de uma forma mais geral, sobre a linguagem visual. O tema é bem extenso, e este post é apenas uma introdução.
Vivemos mais do que nunca rodeados por imagens. Tiramos selfies, vemos fotografias nas redes sociais, no noticiário, na publicidade. Essas imagens sempre trazem consigo mensagens, que podem ser mais ou menos objetivas. Mesmo sem percebermos, essas mensagens chegam até nós. E é importante prestar atenção na mensagem contida nas imagens, para poder fazer uma leitura crítica delas, e até para filtrar um pouco esse contingente de informação que chega até nós diariamente. 
As imagens são algo muito poderoso. Elas contam histórias, e ouvir histórias é uma necessidade do ser humano; a tradição é feita com histórias. Elas criam significado e nos ajudam a entender o mundo em que vivemos, e as situações que nós vivemos. 


Pintura rupestre do Parque Nacional da 
Serra da Capivara. 
Foto do site www.suapesquisa.com
Na pré história, a relação do homem com as imagens, até onde sabemos, era a da magia. É a hipótese mais provável. As pinturas pré-históricas tinham uma função prática, para concretizar ações, como a caça, a proteção contra maus espíritos, entre outras coisas. 
E ainda hoje existe um resquício dessa função mágica da imagem em nossa mente. Na faculdade de Artes, eu li aquela bíblia chamada A História da Arte, de Gombrich. No primeiro capítulo aparece um exemplo ótimo para mostrar como a nossa relação com as imagens não é assim tão racional como supomos: imagine pegar o jornal de hoje (de papel ainda, que o livro é de 1950) e recortar o retrato do seu "campeão favorito" (também pode ser a fotografia de uma pessoa querida). Você sentiria prazer em furar os olhos dessa imagem com uma agulha? A sensação seria exatamente igual se você fizesse furos em outra parte do jornal? Pois é, a gente sabe que nada vai acontecer com a pessoa retratada, mas não deixa de ser desconfortável.
Então é preciso pensar no que as imagens que chegam até nós estão transmitindo. Sabemos que a publicidade, por exemplo, vende muito mais do que produtos; vende ideias, estilo de vida. Uma fotografia, apesar de parecer uma representação fiel da realidade, não é uma imagem neutra, isenta de interpretação. 
A pose do retratado pode trazer diferentes interpretações; assim como o ângulo de visão. Quando a fotografia é tirada de um ponto um pouco acima da pessoa retratada, essa sutileza faz com que estejamos acima dela quando vemos o retrato. Como resultado, a pessoa pode parecer menor, inferior, em uma posição a ser julgada. Da mesma forma, se o retratado é visto um pouco acima de nós, pode passar a ideia de poder, de grandeza. Isso aparece bastante no cinema e nas histórias em quadrinhos.


Cena do filme O Poderoso Chefão. A câmera baixa enfatiza a posição
de poder 
do persnonagem.

Página da HQ Sin City, de Frank Miller. À esquerda, câmera alta, mostrando 
vulnerabilidade. À direita, câmera baixa, evidenciando o poder. Este também
é o ângulo que as personagens estão se vendo, o que faz o expectador
ter a visão do possível opressor e do oprimido, sucessivamente.
























Quando o corpo de uma mulher aparece recortado, em close, e tudo o que importa são suas formas e seu apelo, está retratado como um produto (e essa é só uma das formas em que a mulher aparece como produto). E se aparece assim tantas e tantas vezes, fica a sensação de que isso é normal. Se, ao contrário, a mulher for retratada como sujeito, será valorizado o que ela pensa, o que sente, a que aspira. Essa é a diferença fundamental.
Peça publicitária da Skol. A marca já em histórico de publicidade que 
objetifica as mulheres.




















Publicidade do perfume Paco Rabanne. Imagem do homem em 
uma posição de poder (mas também com tendencia a 
objetificação...)



























Vale lembrar que na publicidade a representação do homem também tende a ser estereotipada, como o provedor, dominador ou agressivo. Mas felizmente aos poucos têm surgido empresas buscando fazer diferente.
Esses são apenas alguns exemplos de tipos de representação que são comuns atualmente. Muitos outros aspectos podem ser analisados, como o que as pessoas estão fazendo, qual a sua função, a sua posição... Observe as capas de revistas, as imagens dos jornais, da publicidade, dos filmes e seriados. O que elas dizem para você? Com isso os meios de comunicação estão sendo éticos? Estão buscando mudanças ou reforçando estereótipos nocivos?
Em artes as mensagens tendem a ser menos objetivas. É característica da arte ser mais aberta a interpretações, com possibilidades de significados diversos. Ainda assim, as mensagens estão presentes, podendo ou não alcançar o espectador. Como artista, eu me preocupo com as mensagens que estou transmitindo. Por isso existem conteúdos específicos que coloco nas obras que produzo. Questões como a introspecção, o encontro consigo mesmo, a harmonia com o ambiente, tem aparecido em meu trabalho. 
Serpente III, Amanda Branco. Van Dyck sobre algodão. O corpo aqui não é 
objeto, mas parte do sujeito, e meio de auto expressão.





















Para complementar essa reflexão, eu gostaria de recomendar: 
Este trecho do filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho. É um video curto e fácil de entender. Aqui, o escritor José Saramago e o cineasta Wim Wenders dão depoimento sobre a importância das imagens. 
-Para quem quiser se aprofundar no assunto, o livro Modos de Ver, de John Berger. O livro mostra a influência da tradição da pintura nas imagens da publicidade; e como os valores  reaparecem contemporaneamente. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Mas afinal, o que é fotografia artesanal?

Quando as pessoas vêem meu trabalho, me perguntam como eu “imprimo” as fotos. Na verdade não é  uma impressão, e sim revelação.
Animus, 2013. Variação de cianótipo com viragem de chá preto sobre papel.




















Para entender o que é fotografia artesanal, precisamos relembrar o que é um papel fotográfico. O papel fotográfico é um papel produzido industrialmente, que tem uma superfície coberta por uma camada de emulsão sensível à luz. Essa substância é uma gelatina combinada a sais fotossensíveis.
Quando esse papel é exposto à luz (por exemplo, a luz do ampliador em um laboratório), as partes que receberam luz reagem, e as partes que não receberam luz não reagem. O papel continua branco, mas quando é mergulhado na solução do banho revelador, a imagem começa a aparecer.
Quem já teve experiência em laboratório fotográfico sabe que esse processo é meio mágico. Por mais que estejamos acostumados às facilidades da tecnologia digital, ver a imagem surgir no papel é outra história! 

Depois do banho revelador, o papel é mergulhado em um banho interruptor e depois no fixador. Por ultimo, o papel é lavado em água corrente. Esse é o processo para revelar uma imagem no papel fotográfico PB.
Quando estamos falando de fotografia artesanal, o processo é parecido. Mas, em vez de usar o papel fotográfico, o artista/fotógrafo usa um papel comum, e aplica manualmente uma emulsão fotossensível. Outra aspecto é que não há ampliação, então a imagem final será do mesmo tamanho do negativo/matriz.
A Praia, 2012. Goma bicromatada sobre papel.






















Ensaio Circense II, 2012. Cianótipo sobre papel.




























Para as minhas fotos, eu preparo a emulsão com os químicos e depois aplico em um papel (geralmente papel de aquarela, que absorve sem ficar encharcado). Depois de seco, coloco em cima do papel o negativo da imagem a ser feita (pode ser um fotolito, ou uma imagem impressa em uma transparência) e por cima uma placa de vidro, que serve para manter o negativo junto ao papel. Esse conjunto vai ser exposto à luz (geralmente a luz do sol), e depois revelado em banho químico, que varia de acordo com a técnica.
Montagem do papel sensibilizado com o negativo e o vidro por cima.



















Como o processo é artesanal, é bastante impreciso. As tonalidades podem ficar diferentes de uma cópia para outra, pode ficar mais ou menos escura, mais ou menos contrastada. Tudo isso faz parte da aventura de trabalhar com fotografia artesanal: uma imagem nunca fica igual à outra.
Existem diversas técnicas de fotografia artesanal; eu já realizei trabalhos com Van Dyck Brown, Cianotipia e Goma Bicromatada. Em breve escreverei sobre cada uma.

Para quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo o livro Fotografia Pensante, de Luiz Monforte, que traz as "receitas" dos processos alternativos de fotografia. O livro está esgotado faz tempo, mas vale a pena procurar em sebos e bibliotecas. O blog Alternativa Fotográfica também tem um bom conteúdo, com as experiências de Fabio Giorgi.
Fotografia Pensante, o livro que foi o meu guia para começar.