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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Cerâmica


Moringa em cerâmica branca e terracota. Amanda Branco




















Depois de um tempo trabalhando com fotografia artesanal e pintura corporal, decidi incluir outro elemento em minha pesquisa para o doutorado: a cerâmica.
Como tinha pouca experiência com esse material, no ano passado participei da oficina de cerâmica da EMIA, com o prof. Fábio, que aliás foi muito bacana, e tem uma ótima experiência artística para compartilhar com os participantes! O meu intuito ao participar da oficina era experimentar e sentir um pouco a técnica, antes de levar adiante o projeto do doutorado.

Mas o que a cerâmica tem a ver com a minha produção, geralmente bidimensional e focada na fotografia artesanal? Por se tratar de um fazer artesanal, a cerâmica pode ter aspecto irregular, pelo menos quando não se usa um molde. Pode trazer a marca da gestualidade impressa na matéria pela modelagem manual, dos dedos, ou com instrumentos, estecas, assim como a fotografia artesanal traz as marcas do gesto com pincel. De certa forma, são atividades que nos ajudam a nos conectar com o corpo. E isso contribui para uma conexão com o momento presente. Pelo menos para mim, como iniciante na cerâmica, não era possível fazer uma peça pensando em outra coisa.
Uma colega estava participando dessa oficina por recomendação médica, por ela ser muito agitada. Acredito que essa necessidade de presença é um dos motivos de o trabalho em cerâmica ser terapêutico.
Outro fator de aproximação: assim como a fotografia artesanal, a cerâmica também parece ter vontade própria, trazendo certa imprevisibilidade ao resultado. Os ceramistas mais experientes vão aprendendo a dominar melhor a matéria e a diminuir as surpresas, mas elas continuam acontecendo ocasionalmente. Dizem que o ceramista está sempre aprendendo, pois trata-se de uma arte com muitas possibilidades técnicas. 
Por fim, também penso que as duas práticas, cerâmica e fotografia artesanal, estão relacionadas ao antigo, ancestral: a cerâmica é uma das mais antigas formas de arte da humanidade, e a fotografia artesanal remonta aos primórdios da fotografia.


Peças para colares, em cerâmica branca e terracota. Amanda Branco

Nesse período de experimentação da cerâmica, me interessei bastante pela técnica do esgrafito, uma forma de desenhar com a própria argila. Provavelmente pela atração que sinto pelos grafismos e desenhos! Para realizar o esgrafito, modelamos a peça com argila de uma cor e então pintamos a superfície com argila de uma cor diferente. Então raspamos com um estilete, palito ou algo semelhante, para deixar visível a cor da argila de baixo.
Com essa técnica decorei a moringa, toda feita a mão (sem torno, por isso com superfície bem irregular!), com cerâmica branca e terracota. Também fiz as peças de serpente e peixe, que vão virar colares assim que eu encontrar um bom cordão para eles. E os quadros de rosa e girassol. Nesse último eu também fiz uma pintura a frio (depois da queima), com tinta acrílica.

Acredito que esse momento de sentir o trabalho em cerâmica foi bem importante, agora tenho um pouco mais de experiência para desenvolver meu trabalho. Vou publicar algumas coisas conforme a pesquisa for avançando.


Quadro Rosa, em cerâmica branca e terracota. Amanda Branco


Quadro Girassol, em cerâmica branca, terracota e tinta acrílica. Amanda Branco


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Clichê Verre - primeiros experimentos


Precisei dar um tempo no blog, e agora estou de volta. Consegui resolver outras coisas como o tão esperado (por mim pelo menos!) site oficial. Se você ainda não viu, pára tudo e vai lá: 
Agora vou compartilhar os primeiros experimentos que realizei com clichê verre. O clichê verre é uma técnica híbrida que nasce do encontro da fotografia com a gravura. A matriz é feita com uma chapa de vidro (também pode ser de acrílico ou acetato), que será pintada com tinta preta. Posteriormente o desenho será gravado nela, riscando-se a tinta com uma ponta seca.

Eu achava que seria mais complicado, pois havia visto no livro Fotografia Pensante a recomendação de usar tintas de gravura. Mas recentemente a artista e gravurista Néia Martins (confira a beleza do trabalho dela aqui: https://www.instagram.com/neiavancatarina/) me deu a dica de que é possível fazer com nanquim, material que eu já tinha em casa, o que tornou o processo bem simples. 

Então esses foram os procedimentos: apliquei uma camada de nanquim em uma chapa de vidro. Primeiro tentei com nanquim escolar da marca Acrilex, e não deu funcionou muito bem. A cobertura ficou ruim e fiz uma segunda camada, que ficou ainda bem irregular, e algumas áreas simplesmente não secavam, a tinta não aderiu bem ao vidro. 

Então usei um nanquim profissional, da marca Talens. A chapa não parecia muito uniforme e eu tentei aplicar uma segunda camada, mas logo percebi que não ia dar certo pois estava estragando a camada de baixo. Então trabalhei com apenas uma camada mesmo.
Preparo da matriz para gravação.

Com o nanquim escolar: pouca aderência



































O plano era fazer um desenho com algum lápis que aparecesse sobre o fundo preto, e depois gravar usando uma ponta metálica. Eu não tenho a ponta seca específica para gravura em metal, então procurei alternativas. Usei um lápis sépia para desenhar e para minha surpresa, aplicando alguma pressão ele arranhou o naquim, produzindo incisões com traços grossos. Para detalhes finos usei uma ponta de compasso, que funcionou muito bem, produzindo um traço bem mais fluido que o lápis. 
Um detalhe importante: se você for trabalhar com chapa de vidro, eu recomendo espelhar o desenho antes de gravar. Assim, na hora de expor à luz o lado da gravação pode ficar para baixo, garantindo que esteja em contato com o papel. Se o lado da gravação ficar para cima, há o risco de perder nitidez devido à espessura do vidro. 

Gravando com um lápis!

Detalhe da chapa gravada































Com a chapa pronta, era hora de fazer os testes. Revelei usando cianótipo sobre papel e sobre tecido. Eu pensava que no tecido os detalhes mais finos poderiam se perder, mas curiosamente eles ficaram mais marcadas do que no papel, produzindo um desenho mais contratado. Porém os dois resultados ficaram satisfatórios. Considerando que eu já tinha os químicos de cianótipo, o processo se mostrou uma gravura a um custo bem baixo, além de ser  muito fácil reutilizar as chapas: basta lavar com água (portanto, se não quiser estragar a matriz gravada, não deixe molhar!). A técnica pareceu bem promissora, e já vejo possibilidades de unir os desenhos em vidro com negativos fotográficos ou fotogramas! Mais possibilidades criativas surgindo!
Revelação em cianótipo sobre papel
Revelação em cianótipo sobre algodão




terça-feira, 17 de abril de 2018

Negativo de Papel Encerado - Primeiros experimentos

Olá pessoal!
Algumas semanas atrás postei no Instagram o negativo de papel que eu estava preparando, e hoje quero mostrar os primeiros experimentos que realizei com esse tipo de negativo.
O negativo de papel é uma forma de baratear o processo fotográfico. As imagens produzidas assim têm como características serem menos nítidas, pois incorporam a textura do papel em que foi feito o negativo, e podem apresentar um contraste menor também.
Pode ser uma boa opção se você quer incorporar esses aspectos no seu trabalho.

Meus negativos em papel encerado.



















O preparo do negativo com vaselina.



















Preparei os negativos de papel da seguinte forma: imprimi a imagem negativa em papel sulfite com uma impressora jato de tinta. Com a imagem seca, apliquei vaselina líquida no verso do papel e esfreguei com uma toalha de papel - isso deixa o papel transparente. Passei o papel toalha até não restar nenhum resíduo de brilho no negativo. Depois deixei esse negativo entre duas folhas de papel toalha com um livro em cima para fazer peso por uns 30 minutos, para retirar qualquer excesso da vaselina.
A minha impressora não tem uma qualidade muito boa, outra impressora poderia fazer um negativo mais nítido.
De qualquer forma quis fazer o teste. Imprimi 3 fotos em negativo, duas paisagens e uma miniatura de uma das imagens da série Religare. Esta última era a única que estava bem contrastada; as duas paisagens não tinham muita variação de tons, e isso deve ter dificultado o processo.

Primeiro fiz testes usando goma bicromatada, e nenhuma ficou boa; não conseguia abrir as luzes. As imagens provavelmente ficaram superexpostas. Com bastante esforço, passando a esponja no papel molhado, as luzes abriram só um pouco. A imagem que apareceu um pouquinho mais foi a miniatura da série Religare, acredito que devido ao contraste mas definido. Em outro momento quero tentar de novo, talvez com uma encolagem no papel. Mas isso será assunto para outro post.

Tentativas de revelar em goma Bicromatada... 
Sofrência! :p


















Depois fiz um teste com cianótipo. A primeira imagem ficou subexposta. Estava um pouco complicado definir o tempo de exposição nesse dia, pois havia sol com algumas nuvens, o que causava variações na luz natural ao longo do processo. Fiz uma nova tentativa, com exposição três vezes mais longa, e finalmente consegui uma imagem bem exposta!

Primeira tentativa em cianotipo: 
Imagem subexposta.
Segundo tentativa em cianotipo,  a imagem ficou 
bem exposta :D

Gostei bastante desse resultado! A baixa nitidez cria uma atmosfera que pode acrescentar em  alguns trabalhos. Vou compartilhar aqui quando tiver mais experimentos com negativos de papel.

Se você se interessou pela técnica, veja mais sobre o negativo de papel aqui.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Curso: Cianotipia e Goma Bicromata

Fotografia revelada em cianótipo com negativo 
digital.



















Olá pessoal !

Já publiquei nas redes sociais, mas anuncio aqui também:
Estão abertas as inscrições para o curso de fotografia artesanal que farei na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

A fotografia artesanal compreende os processos fotográficos históricos do século XIX, e atualmente esses processos são utilizados por artistas e fotógrafos que buscam explorar o potencial plástico de uma fotografia menos comprometida com a documentação da realidade, abrindo-se para possibilidades criativas.

Trata-se de um sistema aberto a intervenções, que possibilita o uso criativo do meio. No curso, vamos preparar nossos próprios papéis fotográficos, trazer imagens digitais para produzir os negativos, e também faremos a revelação das imagens.

Ao longo dos encontros, serão desenvolvidos exercícios com fotograma (fotografia sem câmera), revelação de negativo monocromático em cianótipo usando papel e tecido, viragem de chá preto, revelação de imagem em goma bicromatada monocrática e a 3 cores.

Fotografia revelada em cianótipo com viragem de
chá preto.













Fotografia revelada em goma bicromatada
com três cores, e os negativos utilizados.
























Local: Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro, São Paulo.
Data e Horário: 5/4 a 24/5 – quinta(s)-feira(s) - 14h às 16h

Faça a sua inscrição nesse link.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Pequenos Cianótipos

Autorretrato. Amanda Branco, 2012. Cianótipo sobre papel.

























Hoje vou mostrar alguns exercícios que fiz tempos atrás. Usualmente eu trabalho com formatos grandes de fotografia, no mínimo tamanho A4. Mas ocasionalmente faço experimentos em tamanhos menores.
As imagens deste post foram feitas em cianótipo usando no lugar do negativo impresso o próprio filme médio formato, que cliquei com a  minha câmera lomo Diana. Isso foi possível porque o filme era PB, e apresentou um bom contraste.

O negativo utilizado.

O resultado ė uma imagem sem retícula e mais nítida, pois a imagem no filme é contínua e com maior definição do que o negativo impresso. Porém, o papel de aquarela apresenta uma textura, então a imagem  revelada é menos precisa do que as realizadas sobre o papel fotográfico tracicional PB.

Como a imagem em cianótipo é feita por contato, o resultado final é do tamanho do negativo: são imagens pequenas,  com cerca de 7 cm de largura.
O registro digital, feito de forma a ampliar essa revelação, enfatiza as diversas "imperfeições", que na verdade são indícios da materialidade do meio: a textura do papel, riscos no negativo, e até as inscrições de marca e tipo do negativo.

Autorretrato II. Amanda Branco, 2012. Cianótipo sobre papel.

























Os dois autorretratos foram feitos sem Flash, diante de uma janela que iluminava principalmente o rosto. Isso deixou o restante da imagem escuro, o que junto com a cor do cianótipo e a textura do papel, cri uma aura de mistério nas fotografias.

Sem título. Amanda Branco, 2012.
Cianótipo sobre papel.


























A imagem acima foi clicada usando uma lente olho de peixe, que criou um aspecto esférico na paisagem de árvores. Aqui também foi utilizada a técnica do fotograma: coloquei uma pulseira sobrepondo o negativo, e ela parece se enrolar na "esfera" criada. As formas arredondadas traz em dinamismo para a cena, que parece flutuar no espaço.

Esses exercícios são exemplos de como para criar usando processos artesanais de fotografia, não é necessário seguir uma fórmula pronta. Conforme se compreende o funcionamento dos processos, com diferentes experimentos, são percebidas cada vez mais possibilidades que podem ser incorporadas na sua criação.

Nota: A série sobre nudez na arte ainda continua, mas estava inviável fazer um post com tema novo de história da arte toda semana, porque envolve pesquisa, e o texto demora mais para ficar pronto. Então, vou alternar os posts da série com outros sobre os meus processos em arte.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Fotografias em Dégradé

Árvores com degradé vertical.

Nas últimas semanas eu postei no Instagram alguns exercícios que tenho feito usando goma bicromatada. A ideia era criar imagens com mais de uma cor, com apenas um negativo. Na hora de aplicar a emulsão no papel, criei um degradê do vermelho ao verde. É difícil fazer mesclas durante a aplicação da goma no papel, mas acredito que com um pouco mais de prática isso deve fluir melhor. 

Na próxima vez haverá mais registros do processo. Muitas vezes eu estou absorta na criação e esqueço de fazer os registros, mas eles são importantes. Dessa vez eu só lembrei de pedir ao Aldrin para filmar uma das revelações, que foi o vídeo postado no Instagram. 

Praia com degradé vertical

Gostei especialmente do resultado desta imagem da árvore na praia. Parece que as cores separam os planos da imagem. Também remete às fotografias analógicas em que houve um vazamento de luz, o que ocasionava manchas geralmente avermelhadas. Nas imagens que revelei, as áreas vermelhas passam a sensação de um dia muito ensolarado, de um excesso de luz, como o que provocaria um vazamento de luz nas fotografias tradicionais.

Os resultados foram bastante animadores, mostrando um potencial criativo. Quero explorar mais essa técnica, e seguir diluindo as fronteiras entre a goma bicromatada e a pintura.

Da série Serpente, com degradé horizontal.

Da série Serpente, com degradé vertical.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Como Revelar Gomas Gigantes


Para revelar uma goma gigante você vai precisar de:
- um negativo gigante;
- um suporte gigante;
- uma mesa de luz gigante luz solar;
- uma placa gigante de acrílico transparente;
- goma arábica;
- dicromato;
- pigmentos - bastante!;
- espatula de misturar tintas;
- bandeja de pintar parede;
- pincel largo;
- secador de cabelos;
- tecidos- podem ser toalhas ou panos de chão;
- mangueira.

As imagens da série Religare tem grandes dimensões, chegando a 1m x 1,60m. O tamanho das imagens foi um desafio, e com alguma persistência, consegui revelar. A técnica foi adaptada para a revelação sobre madeira e em grande escala.

Para começar -depois de ter realizado o ensaio- foi necessário imprimir o negativo. Encontrei na Galeria do Roc uma loja que faz a impressão de fotolitos por metro, e assim pude fazer o negativo gigante. O primeiro ficou no tamanho de 88 cm x 150cm, um pouco menor que a placa de compensado usada como suporte.


















Depois procurei a melhor forma de aplicar a emulsão na madeira. Cheguei à conclusão de usar uma bandeja de pintar parede e um pincel bem largo.

Notem também que eu estava trabalhando de luvas sempre. 
Os químico de fotografia podem ser bastante tóxicos...
É sempre necessário ter cuidado.


















Então era necessário secar completamente a emulsão, com um secador de cabelos, para fazer a exposição à luz. E não funciona preparar o suporte na véspera. Se demorar muito para fazer a revelação, a goma endurece e não abre as luzes. Pra funcionar bem, precisa fazer a aplicação da emulsão e a exposição à luz no mesmo dia.

Secando com secador de cabelos















Na exposição à luz, substituí a placa de vidro por uma placa de acrílico, por que é um material seria mais leve e mais seguro de manusear. Mesmo assim, era uma placa bem pesada! Achei que não ia conseguir carregá-la, mas fui encontrando um jeitinho e acabou funcionando. Fiz a minha placa tem 8mm de espessura com receio de que se fosse mais fina correria o risco de empenar. Mas acredito que daria para fazer a placa um pouco mais fina para deixar ela mais leve.















Para a revelação em água, eu não tinha uma bandeja gigante, então usei compressas para amolecer a goma.

















Por fim, o banho de água corrente foi feito com mangueira.





Enfim, foi um processo bastante experimental,  com tentativas e erros, que alcançou resultados positivos. Essa parte de inventar a técnica é importante para o processo criativo. No mínimo, mostra que o artista não precisa se manter dentro de tecnicas e formatos preexistentes para criar. É possível transcender estes formatos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sobre Pintura Corporal

Pintura corporal para a série Religare, 2017

















As pinturas corporais aparecem em vário dos meus trabalhos, é uma parte importante da minha produção. Como mencionado no post sobre a Série Serpente, esse processou surgiu a partir de estudos sobre as pinturas corporais indígenas. É um tema que me pegou. A decoração da pele me atrai bastante, fico fascinada por grafismos corporais e tatuagens também - apesar de não ter nenhuma até o momento.

Na minha produção, o ato de se pintar aparece como um ritual, podendo ser bem demorado dependendo do que se faz. Algumas pinturas que fizemos (o Aldrin e eu) levaram 8 horas para ficar prontas. Isso por que é um trabalho minucioso, desenhando cada grafismo. É necessário se concentrar no momento presente,  no que se está fazendo -  o que pode ser prazeroso, e um alívio para a mente acostumada com a multitarefa.

Os padrões repetido sobre corpo parecem criar um efeito hipnótico. Ter o próprio corpo pintado é uma experiência, uma vivência. Entre alguns povos indígenas,  a pintura corporal é usada em rituais, simbolizando uma transformação. E isso é algo que pude sentir nas vezes em que tive o corpo pintado. A pintura parece ter esse poder de transformação. 

Ao longo dos anos experimentei diferentes materiais para a pintura: lápis de olho, que funcionou para pequenas áreas do corpo, urucum e henna, que foi frustrante: não consegui um bom resultado com nenhuma das duas. O que eu pintei saía facilmente com água ou suor; com canetas hidrográficas, que funcionaram bem; delineador e uma pintura facial líquida, que não tiveram um resultado tão bom; e pancake artístico. Esse funcionou muito bem.

Além do material, também fomos desenvolvendo a técnica, a forma de pensar e dividir o corpo para a pintura ficar bem distribuída. Como as formas do corpo são irregulares, o processo é muito diferente de desenhar sobre uma superfície plana. Abaixo estão algumas das pinturas que realizamso tendo o corpo como suporte.

Primeiros experimentos com lápis de olho, para a série Grafismo, de 2008.

















Mais desenhos para a série Grafismo.

















Imagem para a série Grafismo, 2008.
























Imagem "crua" para a série Serpente,  2009.



















Aldrin se pintando para a serie Animus (2012).



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Exposição Religare - 2017

Na abertura da exposição
















Enfim começamos 2018! Que tenha artes, fotografia e experiências para compartilhar!

No fim de 2017 tudo aconteceu muito rápido. Finalizei a minha dissertação de mestrado, realizei a defesa e a exposição, que foi a primeira individual desse porte, e durou poucos dias; nem consegui um tempo para escrever aqui! A exposição aconteceu entre os dias 6 e 8 de Dezembro, na Galeria do Instituto de Artes da Unesp. Agora gostaria de mostrar um pouco para quem não pôde ver pessoalmente.

Religare é uma expressão em latim que significa “religar”, “reunir o que foi separado”. O trabalho aqui desenvolvido traz a poética de buscar reunir a pessoa fragmentada, que vive em um ritmo frenético de trabalho e informações cada vez mais onipresentes, com as tecnologias digitais. Sem tempo de silenciar a mente, sem tempo de se conectar a si mesmo e ao momento presente.

A Série Religare enfoca a busca por uma introspecção, pela ancestralidade e pelo sagrado, com a produção artesanal de imagens e o enfoque no corpo. Algumas imagens fazem alusão a posturas de Yoga — arte milenar praticada pela artista há alguns anos, e que tem por objetivo reunir corpo, mente e espírito. O corpo, instrumento da ação humana, traz a intenção de estar presente na ação, sem se preocupar com o futuro ou remoer o passado.

A série apresenta a própria artista como modelo com o corpo coberto por grafismos, releitura de pinturas corporais indígenas. A produção é híbrida, unindo a captação digital das imagens a processos artesanais: o desenho sobre o corpo e a revelação com o processo fotográfico goma bicromatada.

As imagens se propõe a deter o olhar. Esse pode ser um começo para que o fruidor cesse um pouco os pensamentos sobre outros tempos, pessoas e lugares, e preste atenção no que está diante de seus olhos.

Além das imagens produzidas da série Religare — que continua em desenvolvimento — a exposição também apresenta o seu processo, que reúne técnicas antigas e novas. São expostos os negativos digitais, alguns materiais e imagens de processo, bem como o “diário de bordo” da revelação das imagens

Também foram expostas as séries Serpente (2009) e Serpente em Madeira (2015).


Religare I a V














Religare X a XII

Religare I a IV.



Módulo com materiais e imagens do processo

À frente, negativos digitais usados no processo. Ao fundo, testes de revelação.

Ao fundo, série Serpente sobre Madeira. À direita, série Serpente.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mostra Artística - Segunda Jornada Internacional de Pesquisa em Arte







































Amanhã, terça-feira, será a abertura da 2a Jornada Internacional de Pesquisa em Arte da Unesp.
O evento dá uma previa de pesquisas em andamento, através da Mostra Artistica e das Mesas de Comunicação. Também haverá palestras de pesquisadores convidados, incluindo a artista Rosana Paulino, desse post aqui.

A programação que você ode conferir no site da Jornada

Vou participar da Mostra Artística com obras que são parte da série Indivisível, produção da minha pesquisa de mestrado. São três fotografias reveladas em goma bicromatada sobre madeira, e em tamanho grande - a área da imagem é de 88 x 150 cm! Falei sobre a goma bicromatada neste post. As imagens foram feitas a partir do mesmo negativo, mas com pigmentos diversos, e tratamentos diferentes. Os resultados são bem diferentes, mostrando algumas possibilidades do múltiplo a partir de uma única matriz.

AVISO: contém nudez! Trabalho com nu artístico desde a graduação, mas sempre considerei as imagens que produzo muito palatáveis, tranquilamente aceitas. Talvez pelo fato de não serem fotografias muito nítidas, e acabam ficando com aspecto de gravura ou desenho. Os processos artesanais costumam diminuir a nitidez da imagem, e acrescentar ruídos, o que diminui o impacto de uma possivel genitália aparecendo. Mas nesses tempos em que tanta coisa no mundo da arte está sendo acusada de agredir "a família, a moral e os bons costumes", é válido avisar.

Vamos?


3 de Setembro - terça-feira
Abertura Oficial do Evento: 14h10
Abertura da Mostra Artística: 17h - Galeria de Arte Alcindo Moreira Filho
A Mostra ocorre entre os dias 3 e 6 de outubro.

Instituto de Artes Unesp
Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271
Barra Funda, São Paulo

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Serpente

Hoje gostaria de voltar ao início, e falar sobre a primeira série fotográfica que realizei com processos artesanais, a Serpente. Esse trabalho começou em 2008, com uma pesquisa que eu estava fazendo na faculdade sobre culturas indígenas, e em especial a pintura corporal. Quis fazer uma releitura dessas pinturas no meu próprio corpo, registrando em fotografia. Mas logo percebi que, nesse trabalho, a fotografia não era apenas um registro, mas a própria obra. Por sugestão do professor que estava orientando o projeto, Agnus Valente, comecei a revelar as imagens com a técnica Van Dyck Brown, que eu já mostrei nesse post. Nesse momento não tive resultados satisfatórios, foi só o primeiro contato.

Eu queria representar nas imagens uma espécie de ritual solitário, algo que se aproximasse de uma sessão de yoga, um momento de se conectar consigo mesmo. A propósito, yoga
em sânscrito significa justamente união, reunir. Então, eu fui criando uma mistura que eu nem imaginava, unindo pintura corporal com yoga, e depois a fotografia artesanal. Mal sabia eu que continuaria pesquisando esse processo por quase 10 anos, até o momento!

No ano seguinte (2009), para o Trabalho de Conclusão de Curso, decidir refazer esse trabalho, aprofundando a pesquisa. Pesquisei sobre as pinturas corporais indígenas, sobre o desenho utilizado, que é conhecido por nós como "grega", e sobre o simbolismo da serpente. Percebi que a pintura corporal se relaciona com o símbolo da serpente, apontando para uma transformação, visto que as serpentes mudam de pele. Em outro post vou aprofundar essa relação, e também vou escrever sobre o processo de pintura corporal.

Dessa vez realizamos a pintura no corpo todo. Digo realizamos por que o artista Aldrin Booz já estava me auxiliando nesse processo, ajudando a fazer a pintura, a definir a organização do desenho no espaço, e a captar imagens, since 2008 (Gratidão pela parceria!). 

A parte final dessa obra foi realizar a revelação das fotografias em Van Dyck Brown, dessa vez com algodão cru como suporte. Aliás, foi nesse momento que eu aprendi a revelar usando esta técnica. Hoje é engraçado lembrar o quanto me atrapalhei nessa época, mas foi parte do aprendizado.

Serpente I, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.





















Serpente II, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.






















Até então eu não tinha entendido que é possível trabalhar em um ambiente apenas sombreado; não é necessário usar apenas a luzinha vermelha de laboratório fotográfico. Fiz a aplicação da emulsão no tecido em casa mesmo. Eu havia encapado a lâmpada com camadas de celofane vermelho na tentativa de simular a luz vermelha. Com a luz muito baixa, não enxergava bem o que estava fazendo, e deixei  a emulsão respingar bastante nas margens das fotografias - o que foi um acidente, mas eu gostei e incorporei o resultado. Assim foram as primeiras lições do processo rs

Eu queria fazer muitas imagens ao mesmo tempo, o que hoje eu acho inviável. E não gostava de perder tempo fazendo a tira de teste (teste feito para calcular o tempo ideal de exposição à luz), e por isso acabava deixando muitas imagens superexpostas ou subexpostas. É sério, se você quiser fazer fotografia artesanal, faça o teste, para evitar desperdiçar tempo e material. Algumas das imagens eu revelei usando a luz do sol, e nesse caso é mais difícil precisar o tempo de exposição à luz, pois a intensidade varia durante o dia. Dessa forma o controle sobre o processo é menor.

Serpente III, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.


Serpente VI, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.

Também apareceram algumas manchas, talvez porque o suporte ainda estivesse um pouco úmido quando foi exposto à luz. O Van Dyck Brown pode ser bem temperamental, principalmente quando a pessoa não tem experiência, e acaba sendo desatenta...

Serpente IV, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

Serpente V, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

Serpente VIII, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

























































Serpente VII, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.



























Mas, mesmo com esses "contratempos", esta foi a primeira série que revelei e tive bons resultados. E principalmente, Serpente abriu esse caminho para minha produção, me deu uma mostra do potencial da fotografia artesanal, e trouxe essa vontade de conhecer, de pesquisar e criar mais.

Serpente IX, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.