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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Clichê Verre - primeiros experimentos


Precisei dar um tempo no blog, e agora estou de volta. Consegui resolver outras coisas como o tão esperado (por mim pelo menos!) site oficial. Se você ainda não viu, pára tudo e vai lá: 
Agora vou compartilhar os primeiros experimentos que realizei com clichê verre. O clichê verre é uma técnica híbrida que nasce do encontro da fotografia com a gravura. A matriz é feita com uma chapa de vidro (também pode ser de acrílico ou acetato), que será pintada com tinta preta. Posteriormente o desenho será gravado nela, riscando-se a tinta com uma ponta seca.

Eu achava que seria mais complicado, pois havia visto no livro Fotografia Pensante a recomendação de usar tintas de gravura. Mas recentemente a artista e gravurista Néia Martins (confira a beleza do trabalho dela aqui: https://www.instagram.com/neiavancatarina/) me deu a dica de que é possível fazer com nanquim, material que eu já tinha em casa, o que tornou o processo bem simples. 

Então esses foram os procedimentos: apliquei uma camada de nanquim em uma chapa de vidro. Primeiro tentei com nanquim escolar da marca Acrilex, e não deu funcionou muito bem. A cobertura ficou ruim e fiz uma segunda camada, que ficou ainda bem irregular, e algumas áreas simplesmente não secavam, a tinta não aderiu bem ao vidro. 

Então usei um nanquim profissional, da marca Talens. A chapa não parecia muito uniforme e eu tentei aplicar uma segunda camada, mas logo percebi que não ia dar certo pois estava estragando a camada de baixo. Então trabalhei com apenas uma camada mesmo.
Preparo da matriz para gravação.

Com o nanquim escolar: pouca aderência



































O plano era fazer um desenho com algum lápis que aparecesse sobre o fundo preto, e depois gravar usando uma ponta metálica. Eu não tenho a ponta seca específica para gravura em metal, então procurei alternativas. Usei um lápis sépia para desenhar e para minha surpresa, aplicando alguma pressão ele arranhou o naquim, produzindo incisões com traços grossos. Para detalhes finos usei uma ponta de compasso, que funcionou muito bem, produzindo um traço bem mais fluido que o lápis. 
Um detalhe importante: se você for trabalhar com chapa de vidro, eu recomendo espelhar o desenho antes de gravar. Assim, na hora de expor à luz o lado da gravação pode ficar para baixo, garantindo que esteja em contato com o papel. Se o lado da gravação ficar para cima, há o risco de perder nitidez devido à espessura do vidro. 

Gravando com um lápis!

Detalhe da chapa gravada































Com a chapa pronta, era hora de fazer os testes. Revelei usando cianótipo sobre papel e sobre tecido. Eu pensava que no tecido os detalhes mais finos poderiam se perder, mas curiosamente eles ficaram mais marcadas do que no papel, produzindo um desenho mais contratado. Porém os dois resultados ficaram satisfatórios. Considerando que eu já tinha os químicos de cianótipo, o processo se mostrou uma gravura a um custo bem baixo, além de ser  muito fácil reutilizar as chapas: basta lavar com água (portanto, se não quiser estragar a matriz gravada, não deixe molhar!). A técnica pareceu bem promissora, e já vejo possibilidades de unir os desenhos em vidro com negativos fotográficos ou fotogramas! Mais possibilidades criativas surgindo!
Revelação em cianótipo sobre papel
Revelação em cianótipo sobre algodão




segunda-feira, 5 de março de 2018

Nudez na Antiguidade Grega

Discóbolo., c. 450 a.C. Cópia romana em
mármore 
da original em bronze de Myron, 
altura 155 cm. Museo Nazionale Romano, Roma.



























Como a história da Antiguidade Grega faz parte do currículo escolar, na disciplina de História e possivelmente em Artes, achei importante incluir uma nota da arte grega nessa série sobre nudez. 

Há uma grande quantidade de nus masculinos nas esculturas em mármore e também em outros suportes, como na pintura em cerâmica. A nudez maculina era uma forma de enfatizar o vigor físico  e a perfeição do corpo. Já o corpo feminino não costumava aparecer nu. As mulheres apareciam normalmente vestidas. A figura feminina que costuma aparecer nua ou com o torso descoberto é Afrodite, deusa da beleza e do amor. A nudez de seu corpo evoca sensualidade e os gestos mostram delicadeza. 

Vênus de Milo.c 200 a.C.
Mármore. Altura: 202 cm; Louvre, Paris.
Por Livioandronico2013 - Obra do 
próprio, CC BY-SA 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/
index.php?curid=54858474






























A sociedade grega valorizava o corpo como um todo. Acreditava-se no conceito de calor corporal: os homens teriam maior calor corporal do que as mulheres, o que conferia a eles maior vigor físico. As mulheres apresentavam menor calor corporal, e eram por isso submissas.
Um homem saudável não precisaria de roupas para manter o corpo aquecido, e por isso, em amibientes de atividades exclusivamente masculinas, eles costumavam se apresentarem nus ou com roupas largas, que  não escondiam seus corpos. Já às mulheres não era permitido que se mostrassem nuas.

Oficina de um escultor grego, c. 480 a.C. Cena do lado inferior de uma taça.
À esquerda, fundição em bronze com esboços na parede, à direita,
homem trabalhando numa estátua sem cabeça.
Diâmetro: 30,5 cm. Antikensammlung Staatliche Museen, Berlim.


















Para quem quer aprofundar, há bastante material sobre a representação do corpo na arte grega. Recomendo alguns:

Livros:
A História da Arte, de E. H. Gombrich;

Uma Nova História da Arte, de Jullian Bell;
  
Capitulo Breve Histórico da Representação social do Corpo - do Egito ao século XIX, do livro O Corpo como Suporte da Arte, de Beatriz Ferreira Pires;

Vídeo: 
The Human Body in Greek art and Society - em inglês, não tem legendas :/ https://www.youtube.com/watch?v=NfWd9QZfils&t=69s

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Nudez na minha produção


Serpente IV, Amanda Branco. Van Dyck Brown sobre algodão. 
2009




Neste momento abordar o tema da nudez em arte é bastante necessário, para não nos perdermos em extremismos. O post anterior foi pouco divulgado no Facebook, e quando tentei impulsionar a publicação na minha page, o anúncio não foi autorizado, porque não são permitidos anúncios contendo nudez, mesmo que seja artística. A imagem que aparecia nesse post no Facebook é aquele detalhe do teto da Capela Sistina. Ou seja, uma imagem que está exibida dentro de uma igreja foi censurada pelo Facebook! Entendo a procupação de se querer evitar pornografia na rede social, mas também acredito que as coisas não precisam ser assim extremas! Existe muito sobre nudez além da pornografia.

Então, continuando a série sobre nudez nas artes, vou abordar um pouco sobre a minha própria produção. Espero conseguir mostrar porque esse tema é tão importante para mim.
Religare VII, Amanda Branco. Goma Bicromatada sobre madeira. 2017



















Para começar, a arte muitas vezes usa linguagens simbólicas e alegorias. A imagem de uma pessoa nua não precisa ser entendida de forma literal. A nudez pode evocar sensações e idéias que compõe uma poética, o que é um motivo para aparecer na arte em diferentes contextos.

Nudez caracteriza-se como a ausência de roupas. A roupa é social: é algo que escolhemos mostrar ao outro que nos olha. Pode trazer informações sobre cultura, etnia, status, idade, personalidade... E em geral é pautada pelo gênero, mas isso atualmente está sendo questionado por algumas pessoas.

Já o corpo nu está desprotegido, tanto do frio quanto do olhar alheio. Pode então transmitir a sensação de vulnerabilidade, ou de empoderamento, dependendo de como é retratado. Nas minhas fotografias, busco uma imagem mais próxima da "essência" da pessoa, do que o corpo coberto com camadas de tecido, que podem funcionar como uma máscara. Ao vermos uma pessoa nua, a pessoa se sobressai, ficando seu status social, sua localização geográfica etc em segundo plano... É como se estivéssemos visualizando o ser humano que está muitas vezes escondido sob camadas de cultura. A nudez aparece como estar despido de tudo o que não faz parte de sua natureza, de tudo o que é socialmente construído.

Aqui pode haver uma aparente contradição: nas minhas fotografias o corpo aparece coberto por grafismos, pinturas corporais. Para algumas pessoas isso pode ser percebido como uma roupa, como o que foi escolhido mostrar. Porém, em uma sociedade como a nossa, não seria um traje aceitável para se usar em locais públicos. Não esconde o que as roupas costumam cobrir, então ainda conserva boa parte da característica da nudez. Esta aparece como escolha poética, como uma tentativa de lembrar que somos muito mais do que o que nossas roupas mostram.

Animus V, Amanda Branco. Cianótipo e Goma
Bicromatada 
sobre papel. 2012


























Emacipação, Amanda Branco. Acrílica sobre tela. 2016

























Religare VI, Amanda Branco.
Goma Bicromatada sobre 
madeira. 2017

Serpente IX, Amanda Branco. Van Dyck Brown sobre papel. 2009


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Nudez na Arte e Nudes Pré-Históricos

Detalhe do teto da Capela Sistina - Estado do Vaticano, 1508-1512.
Afresco de Michelangelo. Imagem daqui:
https://www.thevintagenews.com/2016/06/08/44775-2/





















Semana passada recebi a notícia do Projeto de Lei 8740/17 em tramitação que visa criminalizar a representação de órgãos genitais em obras de arte. Isso é no mínimo estranho considerando séculos de história da arte, em que pinturas de nus aparecem até mesmo no interior de igrejas. Faz sentido criminalizar o acervo de diversos museus?? A justificativa para esse projeto de lei foram as polêmicas ocorridas em 2017, envolvendo a exposição “Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, realizada no Centro Cultural Santander, em Porto Alegre (RS); e a performance “La Bête”, de Wagner Schwartz, realizada no MAM. Houve diversas críticas ao fato da exposição Queermuseu ter sido visitada por escolas, e pelo fato de uma criança ter interagindo com o artista nu na performance “La Bête”, tocando o seu pé e a sua mão, o que levou a acusações de pedofilia.

A questão da nudez na arte e a erotização de crianças tem milhares de tons entre o preto e o branco... tantas variáveis! Eu absolutamente não defendo a erotização infantil.
Para começar, nem toda obra de arte precisa ser feita para crianças. A arte pode tratar de temas mais pesados, como guerra e violência, e se isso for inapropriado para crianças, não significa que o assunto não deva ser abordado. É o caso de se adotar um aviso com indicação de faixa etária na entrada da exposição, por exemplo. E então, sabendo do conteúdo, os pais ou responsáveis podem decidir se levam a criança a essa exposição.

Também é importante ressaltar que abordar temas pesados não significa fazer apologia. O tema pode ser criticado também. Mas proibir um assunto é uma forma de ignorar o problema, e evitar que seja feito algo a respeito. Não ajuda.

Mas a minha principal motivação nesse tema é: a nudez não é apenas sobre sexo e erotização (e também vale dizer, uma imagem pode ser altamente erotizada mesmo sem apresentar nudez). A nudez tem muitos contextos. Na História da Arte, aquela oficial dos livros de história, vemos nus desde a Antiguidade Clássica, passando pelo Renascimento, incluindo pinturas de homens e mulheres nus, e anjinhos com aspecto de crianças... E prossegue, em pinturas do Realismo, em fotografias, na Arte Moderna... e na Arte Contemporânea também não é diferente.

Pensando nisso, decidi fazer uma série de posts com o tema nudez na Arte, mostrando diferentes contextos culturais e possivelmente diferentes aspirações para essas representações. "Arte" aqui aparece no sentido mais amplo, incluindo produções imagéticas ou plásticas de outros períodos e povos que não necessariamente consideravam o que produzem como "arte", mas que hoje entendemos como uma produção cultural, como é caso das pinturas rupestres. Neste primeiro post apresentarei brevemente algumas representações pré-históricas.


Nudes Pré-Históricos 

A imagem da nudez é possivelmente tão antiga quanto a própria representação da figura humana. Uma das primeiras representações humanas que se tem notícia é a Vênus de Hohle Fels ou Vênus Impudica, encontrada na Alemanha, e que data de pelo menos 35 mil anos atrás. A estatueta tem 6 x 3,5 cm e apresenta os caracteres sexuais enfatizados: seios, nadegas e genitália destacados. No lugar da cabeça há apenas uma espécie de gancho, sugerindo que a peça seria usada como pingente. Especula-se que a estatueta esteja associada à busca por fertilidade, o que para povos do Paleolítico Superior seria uma questão crucial relacionada à sobrevivência do grupo.
Vênus de Hohle Fehls. Imagem daqui: 
https://www.thevintagenews.com/2016/06/08/44775-2/




















Um pouco mais conhecida que a Vênus de Hohle Fels é a Vênus de Willendorf, encontrada na Áustria, e que data de 22.000 a 24.000 anos atrás. Representa uma mulher com o ventre grande e redondo, e seios enormes. Esta imagem também parece celebrar a fertilidade, representando uma mulher grávida ou gorda. As Vênus são estatuetas bastante estilizadas, priorizando o que, no contexto em que foram feitas, era o mais importante.
Vênus de Willendorf. Imagem daqui: 
http://www.kenneymencher.com/2016/09/
why-is-venus-of-willendorfso-important.html






















Um pouco mais recentes, as pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara -PI datam entre 12.000 e 6.000 anos atrás. Esses homens pintados também são bastante estilizados, e aparecem com o pênis erguido. Infelizmente, não encontrei estudos sobre o motivo de aparecem assim. Quando se trata de pré-história, os significado e motivações das representações é em geral especulativo, baseado nos indícios que são encontrados. Aqui no mínimo temos a informação de que se trata da representação do sexo masculino.
Pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara
Imagem daqui: http://atlantablackstar.com/2014/07/31/5-pieces-
of-evidence-that-show-black-people-were-the-first-in-the-americas/3/



















 
Pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara
imagem daqui: https://www.viajenaviagem.com/2013/10
/vnvbrasil-serra-da-capivara-senta-que-la-vem-pre-historia/

















Para saber mais sobre essas obras pré-históricas, confira: 

https://vimeo.com/64601937
https://youtu.be/Y8noVoCsYGs
http://www.nytimes.com/2009/05/14/science/14venus.html
http://oridesmjr.blogspot.com.br/2013/09/arte-rupestre-do-brasil-tradicao.html

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sobre Pintura Corporal

Pintura corporal para a série Religare, 2017

















As pinturas corporais aparecem em vário dos meus trabalhos, é uma parte importante da minha produção. Como mencionado no post sobre a Série Serpente, esse processou surgiu a partir de estudos sobre as pinturas corporais indígenas. É um tema que me pegou. A decoração da pele me atrai bastante, fico fascinada por grafismos corporais e tatuagens também - apesar de não ter nenhuma até o momento.

Na minha produção, o ato de se pintar aparece como um ritual, podendo ser bem demorado dependendo do que se faz. Algumas pinturas que fizemos (o Aldrin e eu) levaram 8 horas para ficar prontas. Isso por que é um trabalho minucioso, desenhando cada grafismo. É necessário se concentrar no momento presente,  no que se está fazendo -  o que pode ser prazeroso, e um alívio para a mente acostumada com a multitarefa.

Os padrões repetido sobre corpo parecem criar um efeito hipnótico. Ter o próprio corpo pintado é uma experiência, uma vivência. Entre alguns povos indígenas,  a pintura corporal é usada em rituais, simbolizando uma transformação. E isso é algo que pude sentir nas vezes em que tive o corpo pintado. A pintura parece ter esse poder de transformação. 

Ao longo dos anos experimentei diferentes materiais para a pintura: lápis de olho, que funcionou para pequenas áreas do corpo, urucum e henna, que foi frustrante: não consegui um bom resultado com nenhuma das duas. O que eu pintei saía facilmente com água ou suor; com canetas hidrográficas, que funcionaram bem; delineador e uma pintura facial líquida, que não tiveram um resultado tão bom; e pancake artístico. Esse funcionou muito bem.

Além do material, também fomos desenvolvendo a técnica, a forma de pensar e dividir o corpo para a pintura ficar bem distribuída. Como as formas do corpo são irregulares, o processo é muito diferente de desenhar sobre uma superfície plana. Abaixo estão algumas das pinturas que realizamso tendo o corpo como suporte.

Primeiros experimentos com lápis de olho, para a série Grafismo, de 2008.

















Mais desenhos para a série Grafismo.

















Imagem para a série Grafismo, 2008.
























Imagem "crua" para a série Serpente,  2009.



















Aldrin se pintando para a serie Animus (2012).



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Exposição Religare - 2017

Na abertura da exposição
















Enfim começamos 2018! Que tenha artes, fotografia e experiências para compartilhar!

No fim de 2017 tudo aconteceu muito rápido. Finalizei a minha dissertação de mestrado, realizei a defesa e a exposição, que foi a primeira individual desse porte, e durou poucos dias; nem consegui um tempo para escrever aqui! A exposição aconteceu entre os dias 6 e 8 de Dezembro, na Galeria do Instituto de Artes da Unesp. Agora gostaria de mostrar um pouco para quem não pôde ver pessoalmente.

Religare é uma expressão em latim que significa “religar”, “reunir o que foi separado”. O trabalho aqui desenvolvido traz a poética de buscar reunir a pessoa fragmentada, que vive em um ritmo frenético de trabalho e informações cada vez mais onipresentes, com as tecnologias digitais. Sem tempo de silenciar a mente, sem tempo de se conectar a si mesmo e ao momento presente.

A Série Religare enfoca a busca por uma introspecção, pela ancestralidade e pelo sagrado, com a produção artesanal de imagens e o enfoque no corpo. Algumas imagens fazem alusão a posturas de Yoga — arte milenar praticada pela artista há alguns anos, e que tem por objetivo reunir corpo, mente e espírito. O corpo, instrumento da ação humana, traz a intenção de estar presente na ação, sem se preocupar com o futuro ou remoer o passado.

A série apresenta a própria artista como modelo com o corpo coberto por grafismos, releitura de pinturas corporais indígenas. A produção é híbrida, unindo a captação digital das imagens a processos artesanais: o desenho sobre o corpo e a revelação com o processo fotográfico goma bicromatada.

As imagens se propõe a deter o olhar. Esse pode ser um começo para que o fruidor cesse um pouco os pensamentos sobre outros tempos, pessoas e lugares, e preste atenção no que está diante de seus olhos.

Além das imagens produzidas da série Religare — que continua em desenvolvimento — a exposição também apresenta o seu processo, que reúne técnicas antigas e novas. São expostos os negativos digitais, alguns materiais e imagens de processo, bem como o “diário de bordo” da revelação das imagens

Também foram expostas as séries Serpente (2009) e Serpente em Madeira (2015).


Religare I a V














Religare X a XII

Religare I a IV.



Módulo com materiais e imagens do processo

À frente, negativos digitais usados no processo. Ao fundo, testes de revelação.

Ao fundo, série Serpente sobre Madeira. À direita, série Serpente.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mostra Artística - Segunda Jornada Internacional de Pesquisa em Arte







































Amanhã, terça-feira, será a abertura da 2a Jornada Internacional de Pesquisa em Arte da Unesp.
O evento dá uma previa de pesquisas em andamento, através da Mostra Artistica e das Mesas de Comunicação. Também haverá palestras de pesquisadores convidados, incluindo a artista Rosana Paulino, desse post aqui.

A programação que você ode conferir no site da Jornada

Vou participar da Mostra Artística com obras que são parte da série Indivisível, produção da minha pesquisa de mestrado. São três fotografias reveladas em goma bicromatada sobre madeira, e em tamanho grande - a área da imagem é de 88 x 150 cm! Falei sobre a goma bicromatada neste post. As imagens foram feitas a partir do mesmo negativo, mas com pigmentos diversos, e tratamentos diferentes. Os resultados são bem diferentes, mostrando algumas possibilidades do múltiplo a partir de uma única matriz.

AVISO: contém nudez! Trabalho com nu artístico desde a graduação, mas sempre considerei as imagens que produzo muito palatáveis, tranquilamente aceitas. Talvez pelo fato de não serem fotografias muito nítidas, e acabam ficando com aspecto de gravura ou desenho. Os processos artesanais costumam diminuir a nitidez da imagem, e acrescentar ruídos, o que diminui o impacto de uma possivel genitália aparecendo. Mas nesses tempos em que tanta coisa no mundo da arte está sendo acusada de agredir "a família, a moral e os bons costumes", é válido avisar.

Vamos?


3 de Setembro - terça-feira
Abertura Oficial do Evento: 14h10
Abertura da Mostra Artística: 17h - Galeria de Arte Alcindo Moreira Filho
A Mostra ocorre entre os dias 3 e 6 de outubro.

Instituto de Artes Unesp
Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271
Barra Funda, São Paulo

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Serpente

Hoje gostaria de voltar ao início, e falar sobre a primeira série fotográfica que realizei com processos artesanais, a Serpente. Esse trabalho começou em 2008, com uma pesquisa que eu estava fazendo na faculdade sobre culturas indígenas, e em especial a pintura corporal. Quis fazer uma releitura dessas pinturas no meu próprio corpo, registrando em fotografia. Mas logo percebi que, nesse trabalho, a fotografia não era apenas um registro, mas a própria obra. Por sugestão do professor que estava orientando o projeto, Agnus Valente, comecei a revelar as imagens com a técnica Van Dyck Brown, que eu já mostrei nesse post. Nesse momento não tive resultados satisfatórios, foi só o primeiro contato.

Eu queria representar nas imagens uma espécie de ritual solitário, algo que se aproximasse de uma sessão de yoga, um momento de se conectar consigo mesmo. A propósito, yoga
em sânscrito significa justamente união, reunir. Então, eu fui criando uma mistura que eu nem imaginava, unindo pintura corporal com yoga, e depois a fotografia artesanal. Mal sabia eu que continuaria pesquisando esse processo por quase 10 anos, até o momento!

No ano seguinte (2009), para o Trabalho de Conclusão de Curso, decidir refazer esse trabalho, aprofundando a pesquisa. Pesquisei sobre as pinturas corporais indígenas, sobre o desenho utilizado, que é conhecido por nós como "grega", e sobre o simbolismo da serpente. Percebi que a pintura corporal se relaciona com o símbolo da serpente, apontando para uma transformação, visto que as serpentes mudam de pele. Em outro post vou aprofundar essa relação, e também vou escrever sobre o processo de pintura corporal.

Dessa vez realizamos a pintura no corpo todo. Digo realizamos por que o artista Aldrin Booz já estava me auxiliando nesse processo, ajudando a fazer a pintura, a definir a organização do desenho no espaço, e a captar imagens, since 2008 (Gratidão pela parceria!). 

A parte final dessa obra foi realizar a revelação das fotografias em Van Dyck Brown, dessa vez com algodão cru como suporte. Aliás, foi nesse momento que eu aprendi a revelar usando esta técnica. Hoje é engraçado lembrar o quanto me atrapalhei nessa época, mas foi parte do aprendizado.

Serpente I, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.





















Serpente II, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.






















Até então eu não tinha entendido que é possível trabalhar em um ambiente apenas sombreado; não é necessário usar apenas a luzinha vermelha de laboratório fotográfico. Fiz a aplicação da emulsão no tecido em casa mesmo. Eu havia encapado a lâmpada com camadas de celofane vermelho na tentativa de simular a luz vermelha. Com a luz muito baixa, não enxergava bem o que estava fazendo, e deixei  a emulsão respingar bastante nas margens das fotografias - o que foi um acidente, mas eu gostei e incorporei o resultado. Assim foram as primeiras lições do processo rs

Eu queria fazer muitas imagens ao mesmo tempo, o que hoje eu acho inviável. E não gostava de perder tempo fazendo a tira de teste (teste feito para calcular o tempo ideal de exposição à luz), e por isso acabava deixando muitas imagens superexpostas ou subexpostas. É sério, se você quiser fazer fotografia artesanal, faça o teste, para evitar desperdiçar tempo e material. Algumas das imagens eu revelei usando a luz do sol, e nesse caso é mais difícil precisar o tempo de exposição à luz, pois a intensidade varia durante o dia. Dessa forma o controle sobre o processo é menor.

Serpente III, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.


Serpente VI, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.

Também apareceram algumas manchas, talvez porque o suporte ainda estivesse um pouco úmido quando foi exposto à luz. O Van Dyck Brown pode ser bem temperamental, principalmente quando a pessoa não tem experiência, e acaba sendo desatenta...

Serpente IV, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

Serpente V, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

Serpente VIII, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.

























































Serpente VII, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown
sobre algodão. 
44 x 52 cm.



























Mas, mesmo com esses "contratempos", esta foi a primeira série que revelei e tive bons resultados. E principalmente, Serpente abriu esse caminho para minha produção, me deu uma mostra do potencial da fotografia artesanal, e trouxe essa vontade de conhecer, de pesquisar e criar mais.

Serpente IX, Amanda Branco, 2009. Van Dyck Brown sobre algodão. 
52 x 44 cm.

























terça-feira, 29 de novembro de 2016

Pintando!

Detalhe da pintura.



















Quem me acompanha no Facebook viu que postei recentemente vídeos de processo de pintura. Como você pode ver, eu não trabalho apenas com fotografia. Na verdade, fotografia e pintura são apenas diferentes formas de produzir imagens; e eu não me identifico como pintora ou fotógrafa, mas sim como artista. 
Estava há bastante tempo sem pintar, e esse ano foi bem estranho devido a uma tendinite que dificultou fazer trabalhos manuais.  Então, conseguir retomar esse trabalho, me sentindo bem melhor agora, ainda que com alguma dificuldade, é muito gratificante!
Primeira demão de tinta, bem aguada, para demarcar um
esboço das cores


























Essa pintura, feita com tinta acrílica, foi realizada para a exposição coletiva Nós Mulheres, apenas com artistas mulheres, a convite da Mary D., do Family Art br. Achei um bom momento para voltar ao desenho e à pintura. E também uma oportunidade para abordar o tema do sagrado feminino. 
Pensava nas mudanças ocorrendo entre mulheres, questionando algumas coisas que eram feitas de modo automático, e enfim conseguindo quebrar alguns padrões opressores, que de alguma forma iam contra sua natureza. Questionamentos de padrões de beleza, padrão de corpo, de cabelo, de comportamento. Sua natureza e criatividade podem agora fluir de forma mais livre, mais plena.

Chegando mais próximo da tonalidade geral da pele.
Meu "godê" todo misturado. Nem lembrava, mas foi feito reaproveitando uma
embalagem de ovos rs.







































Desde o início eu pensei em tons verdes e alaranjados para esta tela. A pele amarelo esverdeada acabou surgindo naturalmente. Para mim é bastante natural trabalhar com cores, na forma de tinta. Misturar as tintas e harmonizar as cores é prazeroso. Quando fiz o curso de desenho e pintura (lá em 2003...) aprendi a criar a sombra de um objeto com a cor complementar à sua. Brincar com isso e deixar as sombras coloridas, vibrantes, traz resultados visualmente ricos.
O nu é um tema que eu venho trabalhando há tempos, em desenho, pintura e também na fotografia. Busco representar as pessoas despidas de máscaras, rótulos, status. Sem as roupas é difícil identificar profissão, cultura, e até a época. Assim se sobressai o humano.
Os padrões geométricos fazem parte da minha obra, criando ritmos hipnóticos. Desde que comecei a estudar grafismos indígenas, comecei a incluir padrões geométricos em diversas obras. Para mim é interessante por que o geométrico é o produzido pelo homem, pela cultura, contrastando com as formas orgânicas do corpo, domínio da natureza.

Mesa de trabalho com a pintura já finalizada. No caderno está o esboço inicial
para essa obra. A composição é praticamente a mesma.




















É uma imagem bem dinâmica e vibrante, ainda que a figura aparente estar parada. A pose, inspirada no yoga, é de força e equilíbrio. Bem necessário para quem procura desenvolver-se e evoluir.